Casa.
Dali, na porta, eu podia ver o mundo todo, ou talvez só o céu que brincava com as cores, mas mesmo assim um mundo. Um todo meu.
Vi ela entrar na cozinha, estava pensativa e ocupada pegando coisas para preparar um café. A caixa de cigarros já estava nas mãos, mas não acendeu um de imediato. Eu tentava ver seu rosto, de forma mais clara e nitida possível, mas ela estava muito distraída. Talvez não tinha me visto ali. Eu tentava falar algo, mas nada saia.
A água ferveu, ela pegou o bule já com o pó de café e então passou a água pelo filtro de pano. O cheiro da manhã foi preenchido completamente com aquele cheiro. Eu fechei os olhos e inspirei forte, talvez numa tentativa de lapidar aquela cena na minha memória, pra ter um lugar para revisitar quando bem quisesse.
Ela pegou uma xícara e a encheu. Eu ainda tentava falar algo sem sucesso.
Ela acendeu um cigarro e olhou pra janela. Parecia perdida lá, via um mundo parecido com o que eu via da porta, mas um mundo reduzido. Eu podia ver os seus pensamentos se organizando, mas ainda assim eu ainda não conseguia falar.
Ela se levantou e pegou outra xícara e a encheu de café. Eu não queria café. E ela veio em minha direção, eu já abria a boca para recusar quando vi minha avó entrar pela porta. Minha avó sorria um sorriso cansado e ela, minha mãe, abriu um sorriso receptivo. Um daqueles sorrisos que você desejaria morar.
Fumaram juntas e olharam para a porta. Acho que não me viram de novo, porque eu continuava tentando falar e nada saia da minha boca. Abaixei a cabeça e tentei esconder o choro.
Acho que se levantaram porque senti algo parecido como um abraço, um caloroso, tinha cheiro de casa. Quando acordei tentei entender se era um sonho. O que não importa, porque agora tinha uma memória para chamar de casa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário