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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

The temptation

A morte me chama muitas vezes. Incontáveis vezes. E eu preciso resistir aos chamados dóceis. Por muitas vezes tenho sido bruta com a vida e o que é viver.

A morte me olha nos olhos todos os dias, e ela é linda. Mas é uma beleza que não posso ceder. Há paz e calmaria, mas preciso fazer isso sozinha em minha mente. Todos os dias me encontro com ela e a chamo para um café e acendo um cigarro.

Ela tem tantos argumentos silenciosos. Não tenho medo. Mas preciso sentir mais do que o vazio que eu cultivo e deixo crescer no vão, no fundo da mente.

A morte veio incontáveis vezes. Que beijo doce, que aroma tentador. Em um ato somente, em uma decisão somente.

O juramento da calmaria. Eu sou furacão. O silêncio me consome, por isso cultivo tanto barulho.

É uma dança contínua. O medo não me assusta mais, por isso preciso de outra direção. Todos os dias quando acordo a olho nos olhos e agradeço a visita. 

Com o tempo, preciso aprender a me acostumar com sua presença. Eu não posso apressar o que ela veio fazer. Ela só está aqui para lembrar do que precisa ser feito ainda. 

O dia que ela for embora será para irmos juntas, mas antes preciso me acostumar com sua presença e não oferecer a mão primeiro.

A mão estendida será a dela. Não a minha.

A calmaria vem de outros lugares também.

domingo, 21 de agosto de 2022

Ser pelo ser

Há beleza em muitas coisas no mundo. E eu aprendi a apreciar a beleza do estado das coisas. Ao observar a paisagem da minha janela e achar bela, sem motivo sem precisar explicar nada, só é bela por ser, por estar lá e ser o que é. Em olhar para a lua de madrugada e ver o brilho, a forma, a beleza e a pureza de ser apenas o que é. A lua bonita no seu estado natural de ser, só sendo. Eu aprendi a beleza das coisas que colocamos valor, das coisas imateriais que sempre tentamos achar significado, início, meio e fim. Aprendi a observar a beleza do amor. O amor sendo o que se é, sem que eu precise explicar ou trazer significado. O amor dos meus amigos e da minha família. Sem que eu precise mensurar toda a história por traz. No momento que eu o observo, só existe o amor e eu, o objeto e o sujeito. Sem intenção de alterá-lo, muda-lo, atrelar significado ou magnificência. O amor por ele mesmo. O ser pelo ser, o estado natural do amor, que existe ali no momento em que eu o observo.
A paixão... Ah, como eu amo observar a paixão. Porque ela é um dos meus vícios favoritos. Aprendi a enxerga-la no seu momento finito que se transfere infinito pra memória. Eu observo a paixão e ela no seu estado natural é um olhar, é um sorriso de canto de boca, uma gargalhada espontânea e única. É o aperto no colo da brincadeira, é o cheiro, é a primeira vista. E como todas as outras coisas, aprendi a observar como ela realmente é: a paixão sendo paixão no seu estado natural. A paixão sem expectativas, a paixão no seu estado puro. 
Aprender a enxergar as coisas pelo simples fato do que são traduzem toda a mágica que vim aprender nesse mundo. 
Aprender a ver o que é pelo simples fato de ser, o que existe por existir, o ser pelo ser.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Floating

Você não é o resultado dos seus traumas. Então por que você insiste em se manter a deriva? Por que você insiste em se manter sozinho? Isolado...
Eu sei o porquê. 
Porque quando você gritou ninguém estava lá pra você. Quando você suplicou todos que te ouviram te deram as costas. Quando você estava lá, sofrendo, sozinho, todos os outros já haviam partido. Todos os outros entraram em seus respectivos barcos e foram embora. Mas você ficou, não é mesmo? É, você ficou. E você ficou sozinho. Você gritou até perder a voz, mas mesmo assim... Ninguém veio. E agora você é o próprio barco que deixaram para trás. Você não é alguém alem do algo imóvel que se tornou.
Ei, escuta. Deixe eu te dizer. Espere. Aquilo... Aquilo tudo acabou. Você vê agora? Não, não estou dizendo para esquecer ou fingir que nada aconteceu. Ei, você que está aqui agora, quem é você agora? Onde você conseguiu chegar mesmo com toda essa dor? Quem é você no agora? Ei, você não é o resultado de tudo que fizeram contigo. Você é toda sua história. E esse passado sombrio aconteceu. Você sabe disso mais do que ninguém, porque dói e as vezes dói mais do que você pode suportar. Respira, por favor. Aqui, olhe pra mim. Olhe pra si. Repita comigo: você não é o resultado dos seus traumas. O que aconteceu acabou. E as memórias vão voltar. Mas por favor, respira e repita pra si mesmo:" isso... Aquilo, acabou. Eu estou aqui e agora. Acabou. Uma vez o que aconteceu, aconteceu em outro momento. Essa memória não é o agora."
Meu bem. Acabou. Por favor, respire. Acabou.