...

"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

segunda-feira, 9 de março de 2026

I'd look for you in every life

Eu sabia. Eu sabia que aconteceria. Eu sabia que o fim chegaria. Tudo acaba, tudo tem um fim. E isso... a gente, não seria diferente. Meu Deus, mas como é incrível que só saber não seja o suficiente? Como que só saber não basta pra se estar preparado para o que há de acontecer? Por que eu não poderia dividir a dor um pouquinho de cada vez, em cada dia que vivíamos juntos, como quem paga a dor com um cartão de crédito em várias parcelas? E sentir isso... como pode algo tão abstrato doer tanto?

O pior pra mim sobre a dor e outros sentimentos negativos é que eles nunca se importam de viver concomitantemente com outros sentimentos. Sentir dor, tristeza e saudade ao mesmo tempo que estou feliz e orgulhosa. Parece tão mais pesado do que viver em plena dor e tristeza e saudade, cada um com seu tempo e espaço delimitado. Mas não, é tudo junto e ao mesmo tempo. Talvez o que doa mais é a consciência de si, do processo, do aprendizado, do que foi até aqui, do que é até aqui e do que será a partir daqui.

Eu sabia que chegaria esse dia e talvez por isso eu tenha me agarrado a todos os nossos dias juntos como se fossem os últimos. Que privilégio ter vivido tudo isso. 

A dor de aprender tanto com alguém o que precisava aprender sem que nunca a gente tenha admitido que precisava muito ter aprendido tudo isso. A estar presente. A enfrentar o conflito, o medo. O desconforto. A razão. O sentimento. Aprender a ser divido pelos dois: racional e emocional; quando se achava inteiramente um só.

O seu cheiro está pela casa. Nas roupas. Na cama. Em mim. E pela primeira vez na vida eu não estou fugindo da dor, porque ela me lembra você, a gente, e eu não me atrevo nunca a virar os olhos pro que vivi e aconteceu. Pela primeira vez encaro meus sentimentos de frente e dou espaço para que eles sejam e aconteçam. Sem rodeios, sem limites. E tomo posse da minha consciência, do meu sentir e do meu processo. Penso na perda de algo que poderia ser, mas regogizo com o que ganhei: escolher a mim mesma. E no final aprendi o que evitei a vida toda: egoísmo está longe de ser a defesa de si mesmo e seus pilares. 

Obrigada. Pelo que é. Pelo que foi. Pelo que fomos e pelo que seremos. 

A beleza dessa dor e do amor é saber que eu faria tudo outra vez. E em todas as vidas eu te procuraria só pra ter a chance de te amar de novo. E de novo.

domingo, 21 de julho de 2024

Reality

Eu odeio como você me faz voltar pra mim mesma, todas as vezes! Meu deus, eu odeio muito. Todas as vezes que eu quero apenas te idealizar e viver uma ilusão só minha, você me traz de volta pra realidade. A sua versão que criei na minha cabeça me faz encarar a realidade, e encarar a mim mesma. Todas as vezes que eu procuro em você algo que possa me preencher, você me manda de volta a mim mesma e  eu retorno apenas para as expectativas que criei. Eu odeio tanto o quanto você me bagunça e desarranja toda a estrutura de mentiras e ilusões que criei sobre o mundo e sobre mim mesma. E sabe o que me sobra? Estar presente, de corpo e alma contigo. A ansiedade de prever um futuro, some. A agonia de repreender um passado, não existe. Eu te olho e consigo sentir os minutos, os segundos tal qual o compasso do meu coração. Não, não é uma paixão desenfreada, estúpida, ridícula e sem sentido. Todas as malditas vezes, você me faz voltar a mim mesma no minuto presente. E você evoca o que eu tenho medo: ser melhor. Me aperfeiçoar, ser boa e ser maior pra mim mesma. Você está fazendo tudo errado! Não vê? Eu aprendi a vida toda ser alguém e ser melhor para o outro. Mas para mim mesma? Isso é ridículo, insano. Tudo isso só foi possível porque todas as vezes que procuro as respostas da vida em você, eu enxergo limites. A porra dos malditos limites que demorei tempo demais para aprender a impor. Você é real até quando quer sonhar, você é sensato... E gentil. Quem caralhos faz tudo isso e ainda é gentil? O que você fez com sua dor que nunca a coloca na briga? Você a transformou em algo só seu, em seu aprendizado e traduz isso com carinho. Você afeta os outros com o que aprendeu, nunca usa sua dor para machucar alguém. Eu te odeio tanto por isso, porque me reconheço em você. 
Você nunca abre espaço para que seja a resposta de alguém, você é dúvida, movimento e desejo. E eu não posso te ter preso no tempo. Tudo que posso fazer é apreciar o que vejo e aprender contigo. Aprender e aplicar isso pra mim mesma. Obrigada. Agradeço ter me dado espaço para entender um pouquinho sobre você, sobre como se move, como deseja e como é ser alguém real.
Quando eu quero voltar a padrões que me machucam, você está no fundo da minha mente me lembrando que viver a realidade de forma lúcida é um prazer, e um privilégio.
Eu te odeio... Mas só porque você traz o melhor de mim. E isso me faz reconhecer o meu esforço e minha força. Eu te odeio, mas porque gostar de você, não dói. Então eu te gosto profundamente, e de forma real.

Carta resposta

Não há um dia que passe que eu não me lembre da sua carta. Mesmo que não me lembre por completo, sempre me voltam partes na memória, ou o sentimento de a ter lido pela primeira vez, ou apenas suas palavras que vez ou outra se encaixam na minha vida. A carta sempre me remete a nossa adolescência. E antes de falar qualquer outra coisa, que privilégio ter tido alguém como você na minha vida desde aquele momento. Que privilégio ter divido a vida contigo em todos os perrengues e risadas estranhas. Nunca me arrependo de ter gritado seu nome. E que bom que você me ouviu e me esperou, e não saiu correndo.
Dito isso, o que fomos e o que fazíamos do nosso tempo, era tão nosso. Os livros que compartilhamos, os hobbies que não tínhamos medo de inventar e investir, ser quem a gente era, era muito fácil, não era? E no meio do caminho a gente se perdeu. A gente deixou de ser quem a gente era pra ser algo que esperavam, ou até para atender demandas da vida adulta e todas as nossas responsabilidades. O mais legal de tudo é que nós perdemos juntas, porque a partir de um certo momento precisamos viver a vida sozinha. 
E a gente se encontrou juntas de novo. 
O que me deixa feliz nisso é saber que a gente nunca matou o que fomos. Os hobbies podem ter mudado, o tempo que a gente tinha nunca mais foi o mesmo, mas a gente conservou de forma bem pequenininha dentro de nós, aquilo que um dia fomos. E poder viver os gostos estranhos, e deixar nossas crianças e adolescentes interiores viverem o que sempre quiseram viver, tem sido a parte mais gostosa da nossa jornada.
Espero que entenda como as pessoas têm dentro de si tudo que são e tudo que podem ser, e mesmo que elas escolham de fato ser algo que aprenderam a ser por toda uma vida, e que repitam sempre o mesmo processo, e tenham as mesmas manias, gatilhos e traumas... Elas ainda têm todo um universo dentro de si. Nem sempre vão mudar da forma que gostaríamos, nem sempre verão a vida como vemos, nem sempre vão entender as coisas erradas que vemos. E por um momento vamos dizer que estão definidas, que são o que são e pronto. Mas as vezes as pessoas escolhem diariamente serem quem são, pra gente que olha de fora é algo condicionado a vida toda, é algo que é penoso, é algo que nunca veremos mudança. Mas não mudar também é uma escolha, as respostas que sempre procuramos a vida toda, nunca foram dúvidas para essas pessoas. E tenho aprendido um pouco a partir disso. Nossos pais viveram o que precisaram viver, com questões e dúvidas que nunca poderemos entender. E temos muito medo de ser como eles. E tentamos a vida inteira não nos tornarmos eles. Mas já somos, pelo menos uma parte da gente.
Quero dizer também que sempre aprendi muito com você. Aprendi a me amar e me enxergar com seus olhos de bondade, firmeza, e segurança. Não sei completamente como me olha, mas toda vez que te vejo me encontro e respiro melhor. Poder errar e ter sua paciência para que eu tenha essa possibilidade sempre ajudou a seguir com a vida. Poder brigar e sempre reconciliar, me ensinou a aprender limites e impor os meus. Estar com você me ensinou o valor que tenho e como devo cobrar, sempre, meu valor e respeito no mundo. Tenho falhado várias vezes em ao me colocar em situações ruins, mas obrigada por sempre me proteger e estar lá por mim. Prometo aprender todos os dias a ser alguém que defende a mim mesma e o que acredito, porque com você isso é fácil. 

terça-feira, 23 de abril de 2024

26 de abril

Oi, mãe.

Há quanto tempo, não? Eu quero te dizer tantas coisas, mas tantas coisas mesmo.
E advinha? São muitas coisas boas.
Eu finalmente tenho muito orgulho de quem eu sou e de quem me tornei. Passei por dias muito, muito difíceis. Dias esses que eu imaginei nunca conseguir atravessar. Mas de alguma forma esses dias me atravessaram e sobrevivi a eles. 
Mãe, eu consegui finalmente largar mão da dor e do rancor que eu sempre senti, que eu achei que haviam me construído. Eu consegui ver cuidado e proteção onde eu achei ver apenas impotência. Eu aprendi que as vezes vou ser impotente também, mesmo com coisas que eu achava ter todo o controle do mundo.
Mãe! Eu dei luz e criei um ser humano maravilhoso! Uma filha perfeita, e estou ensinando ela a aceitar a ser imperfeita, enquanto eu mesmo aprendo sobre isso. Tudo que eu achei que fosse mais difícil nesse processo ela me mostrou o quanto é fácil ser potência, forte, resiliente, e ser ela mesma.
Eu tenho aprendido tanto! Com todos e comigo mesma a cada dia. Mãe, eu já não desejo que minha experiência nesse plano seja breve como antes eu achei que queria. Eu quero aproveitar cada pequeno e mínimo instante. Espero te encontrar um dia e falar sobre cada um desses momentos.
Eu aprendi muito com o amor, e com a raiva, e o ódio, e o remorso, e o rancor, e a desesperança. Aprendi que mesmo que pareça insuportável e muito pesado... Vai passar. Vai passar... E sempre passa.
Eu aprendi a abrir lugar para o novo, para o difícil, para o desafio e para aquilo que dá medo.
Mãe, obrigada por tudo que fez por mim e para os outros. Me encontro todo dia no seu amor, no seu carinho e cuidado porque eu aprendi a ser assim, aprendi contigo. E agora sei um pouco mais de quem eu sou e tudo o que me ensinou não está perdido dentro de mim. Agora eu consigo colocar isso no mundo. 
Mãe, meu choro agora não é de dor. Tenho muitas saudades, claro. Mas, mãe... Eu estou tão orgulhosa de onde cheguei. Não se preocupe mais... Tenha orgulho de mim também. Eu sei que sempre teve, mas agora eu tenho consciência disso. Não se preocupe mais, tenho me cuidado, aprendido a amar e a me amar. Eu sou tão legal! Você precisa ver como me olham, como me amam, como me acolhem. Mesmo que eu erre... Eu ainda sei do meu valor. Mesmo que erre eu ainda sou amada. 
Mãe, obrigada por ter feito o que fez com a informação que tinha naquela época. Eu me tornei uma boa pessoa. Não uma pessoa perfeita, se é que isso existe. Mas me tornei uma boa pessoa, mãe.
Obrigada e feliz aniversário. Te amo.

Com carinho,
Fade fade.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

The temptation

A morte me chama muitas vezes. Incontáveis vezes. E eu preciso resistir aos chamados dóceis. Por muitas vezes tenho sido bruta com a vida e o que é viver.

A morte me olha nos olhos todos os dias, e ela é linda. Mas é uma beleza que não posso ceder. Há paz e calmaria, mas preciso fazer isso sozinha em minha mente. Todos os dias me encontro com ela e a chamo para um café e acendo um cigarro.

Ela tem tantos argumentos silenciosos. Não tenho medo. Mas preciso sentir mais do que o vazio que eu cultivo e deixo crescer no vão, no fundo da mente.

A morte veio incontáveis vezes. Que beijo doce, que aroma tentador. Em um ato somente, em uma decisão somente.

O juramento da calmaria. Eu sou furacão. O silêncio me consome, por isso cultivo tanto barulho.

É uma dança contínua. O medo não me assusta mais, por isso preciso de outra direção. Todos os dias quando acordo a olho nos olhos e agradeço a visita. 

Com o tempo, preciso aprender a me acostumar com sua presença. Eu não posso apressar o que ela veio fazer. Ela só está aqui para lembrar do que precisa ser feito ainda. 

O dia que ela for embora será para irmos juntas, mas antes preciso me acostumar com sua presença e não oferecer a mão primeiro.

A mão estendida será a dela. Não a minha.

A calmaria vem de outros lugares também.

domingo, 21 de agosto de 2022

Ser pelo ser

Há beleza em muitas coisas no mundo. E eu aprendi a apreciar a beleza do estado das coisas. Ao observar a paisagem da minha janela e achar bela, sem motivo sem precisar explicar nada, só é bela por ser, por estar lá e ser o que é. Em olhar para a lua de madrugada e ver o brilho, a forma, a beleza e a pureza de ser apenas o que é. A lua bonita no seu estado natural de ser, só sendo. Eu aprendi a beleza das coisas que colocamos valor, das coisas imateriais que sempre tentamos achar significado, início, meio e fim. Aprendi a observar a beleza do amor. O amor sendo o que se é, sem que eu precise explicar ou trazer significado. O amor dos meus amigos e da minha família. Sem que eu precise mensurar toda a história por traz. No momento que eu o observo, só existe o amor e eu, o objeto e o sujeito. Sem intenção de alterá-lo, muda-lo, atrelar significado ou magnificência. O amor por ele mesmo. O ser pelo ser, o estado natural do amor, que existe ali no momento em que eu o observo.
A paixão... Ah, como eu amo observar a paixão. Porque ela é um dos meus vícios favoritos. Aprendi a enxerga-la no seu momento finito que se transfere infinito pra memória. Eu observo a paixão e ela no seu estado natural é um olhar, é um sorriso de canto de boca, uma gargalhada espontânea e única. É o aperto no colo da brincadeira, é o cheiro, é a primeira vista. E como todas as outras coisas, aprendi a observar como ela realmente é: a paixão sendo paixão no seu estado natural. A paixão sem expectativas, a paixão no seu estado puro. 
Aprender a enxergar as coisas pelo simples fato do que são traduzem toda a mágica que vim aprender nesse mundo. 
Aprender a ver o que é pelo simples fato de ser, o que existe por existir, o ser pelo ser.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Floating

Você não é o resultado dos seus traumas. Então por que você insiste em se manter a deriva? Por que você insiste em se manter sozinho? Isolado...
Eu sei o porquê. 
Porque quando você gritou ninguém estava lá pra você. Quando você suplicou todos que te ouviram te deram as costas. Quando você estava lá, sofrendo, sozinho, todos os outros já haviam partido. Todos os outros entraram em seus respectivos barcos e foram embora. Mas você ficou, não é mesmo? É, você ficou. E você ficou sozinho. Você gritou até perder a voz, mas mesmo assim... Ninguém veio. E agora você é o próprio barco que deixaram para trás. Você não é alguém alem do algo imóvel que se tornou.
Ei, escuta. Deixe eu te dizer. Espere. Aquilo... Aquilo tudo acabou. Você vê agora? Não, não estou dizendo para esquecer ou fingir que nada aconteceu. Ei, você que está aqui agora, quem é você agora? Onde você conseguiu chegar mesmo com toda essa dor? Quem é você no agora? Ei, você não é o resultado de tudo que fizeram contigo. Você é toda sua história. E esse passado sombrio aconteceu. Você sabe disso mais do que ninguém, porque dói e as vezes dói mais do que você pode suportar. Respira, por favor. Aqui, olhe pra mim. Olhe pra si. Repita comigo: você não é o resultado dos seus traumas. O que aconteceu acabou. E as memórias vão voltar. Mas por favor, respira e repita pra si mesmo:" isso... Aquilo, acabou. Eu estou aqui e agora. Acabou. Uma vez o que aconteceu, aconteceu em outro momento. Essa memória não é o agora."
Meu bem. Acabou. Por favor, respire. Acabou.