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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

domingo, 26 de abril de 2020

Happy Place

Estava parada na porta da cozinha, meu lugar preferido em toda casa. Era manhã e algo invadia meus pulmões, uma sensação no rosto e nas narinas. Diria que sentia o cheiro da manhã, se isso fosse possível, talvez fosse somente uma sensação; estar em casa.
 Casa. 
Dali, na porta, eu podia ver o mundo todo, ou talvez só o céu que brincava com as cores, mas mesmo assim um mundo. Um todo meu. 
Vi ela entrar na cozinha, estava pensativa e ocupada pegando coisas para preparar um café. A caixa de cigarros já estava nas mãos, mas não acendeu um de imediato. Eu tentava ver seu rosto, de forma mais clara e nitida possível, mas ela estava muito distraída. Talvez não tinha me visto ali. Eu tentava falar algo, mas nada saia. 
A água ferveu, ela pegou o bule já com o pó de café e então passou a água pelo filtro de pano. O cheiro da manhã foi preenchido completamente com aquele cheiro. Eu fechei os olhos e inspirei forte, talvez numa tentativa de lapidar aquela cena na minha memória, pra ter um lugar para revisitar quando bem quisesse.
Ela pegou uma xícara e a encheu. Eu ainda tentava falar algo sem sucesso. 
Ela acendeu um cigarro e olhou pra janela. Parecia perdida lá, via um mundo parecido com o que eu via da porta, mas um mundo reduzido. Eu podia ver os seus pensamentos se organizando, mas ainda assim eu ainda não conseguia falar.
Ela se levantou e pegou outra xícara e a encheu de café. Eu não queria café. E ela veio em minha direção, eu já abria a boca para recusar quando vi minha avó entrar pela porta. Minha avó sorria um sorriso cansado e ela, minha mãe, abriu um sorriso receptivo. Um daqueles sorrisos que você desejaria morar. 
Fumaram juntas e olharam para a porta. Acho que não me viram de novo, porque eu continuava tentando falar e nada saia da minha boca. Abaixei a cabeça e tentei esconder o choro. 
 Acho que se levantaram porque senti algo parecido como um abraço, um caloroso, tinha cheiro de casa. Quando acordei tentei entender se era um sonho. O que não importa, porque agora tinha uma memória para chamar de casa.