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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

segunda-feira, 14 de março de 2016

Leveza

Há um brilho no seu olhar. Um brilho diferente de todos os outros que vi. O seu é um perfeito sistema de contemplação. Ele brilha a cada gesto pequeno, a cada passo, a cada movimento da dança em que estamos jogados. Você acompanha meus olhos, você acompanha meus lábios, você acompanha minha respiração. E eu contemplo sua percepção. Eu acompanho teus movimentos. Há algo neles que me diz sobre a leveza. A leveza de um coração pesado, de um coração cheio mas que sempre carregou um vazio. Toco-lhe e sinto teu vazio. Tu escorregas teus dedos sobre meu corpo e parece também poder sentir meu vazio. Quando isso acontece, nos entre olhamos e conseguimos escutar um zumbido, seguido de um silêncio e um meio sorriso. Há algo em ti em que esvai toda minha ciência de temporalidade. Se passam dez, quinze minutos, um ano talvez e ainda estou ali contemplando teu olhar. Há algo na tua presença em que desperta uma propria trilha sonora em minha mente. Os acordes são doces, depois pesados e ritimados, me tiram o ar e depois voltam a sossegar. Você traz dentro de si sonoridade, leveza, incertezas e lembranças armaguradas, mas incrivelmente tudo que ofereces é um sorriso assustadoramente doce, desestabilizador. A tua leveza é diferente de todas as outras que já vi. A tua me carrega pelos braços, me tapam os ouvidos no meio de uma parafernália de barulhos caóticos, e me sossega os ânimos e por um momento penso em poder escuta lá. Ela parece cantar para mim, como uma cantiga antiga sobre grandes heróis que um dia lutaram com o pior de si, sobre como foram diversas vezes derrotados e abatidos, mas que um dia isso se tornou tudo que tinham mas que não os fizeram deles vilões. Eu sigo com essa cantiga na cabeça, cantarolando-a. E se um dia me perguntarem como essa cantiga se parece, como ela é e se posso canta-la, tudo que poderei fazer será sorrir, da melhor maneira que puder, tentando lembrar e imitar teu sorriso; na verdade, dela não poderei dizer nada, dela não poderei mostrar seus sons, mas dela em mim emanará toda a levaza que um dia pensei nunca poder contemplar.