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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

domingo, 17 de janeiro de 2021

Obrigada medo

Percebo agora que tudo que procurei a vida toda foi me sentir segura. Não foi me sentir pertencida, como achei que fosse. Não foi me sentir amada ou com um propósito. Foi simplesmente me sentir... segura. Chega a ser algo biológico, de sobrevivência mesmo. Você tem noção disso? Eu abri mão do amor, do pertencimento, do suposto propósito de vida que todos procuram para simplesmente sentir o mínimo: segurança. 
E queria poder fechar os olhos e dormir tranquila sabendo que nada de mal acontecerá à mim e minha prole. Eu queria poder sob minha própria vigilância, sempre atenta, não ser desrespeitada. Ter minha voz ouvida, meu sussuro potencializado. Eu só queria estar segura. 
E de repente toda minha vida muda. Achei que se estivesse do lado de alguém conhecido eu poderia descansar, poderia estar menos alerta. Mas não, é estar embriagada as 4h da manhã que percebo: nunca estive segura, nunca ninguém conseguiu me proteger. Ou pelo menos minha mãe morreu tentando. Como a maioria das mães fazem.
Me encontro machucada, ferida por uma lâmina nunca declarada. A dor sempre se escondeu nos pequenos detalhes, no implícito. E agora me vejo mais uma vez sendo além daquilo que sequer imaginei pensar. Sou alguém que nunca dorme de verdade, que fecha os olhos, mas que sente o mundo querendo entrar, me machucar. Me dilacerar. Eu nunca tentei ser feroz ou ser intenção de algo. E mesmo assim, todos os dias preciso pensar naquele que me machucará. Naquele que nasce nas sombras, no descuido pronto para apontar: a vigília dela foi fraca, impotente.
Me desculpe corpo, me desculpe alma. Eu nunca estive pronta para o soco que vem do escuro. Eu sangrando mantenho minha essência de pé, os meus e os que virão. E provavelmente, esse sangue nunca será o suficiente, pois eles têm fome de dor, sofrimento. E eu? Eu sempre estarei saciada com um copo de companhia despretensiosa. 
Obrigada medo, você me salvou mais uma vez.

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