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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Não morras, Romeu

Não morra, Romeu. Onde já se viu uma Julieta sem teu Romeu?
Romeu, não morra. Tua Julieta não sabe o que será da vida sem ti.
Mesmo que beba do mais doce veneno e se esconda nos braços
da morte, não morra Romeu. Tua amada há de te acompanhar
mesmo que seja nos vales da morte. Romeu, agora é muito cedo para
que morras. O seu cheiro impresso na mente de sua Julieta não
afugenta mais seus demônios. És somente tu, Romeu, de carne
e osso, de mãos e boca que a traz de volta de um mundo sombrio
e gélido. Somente tu, Romeu, a busca no limbo da perdição daquilo
que é real e daquilo que é imaginação. Romeu, tua Julieta não morreu.
Não o fez por ti, Romeu. Não deixes que ela se apague, que ela vire
memória, uma amarga memória num mundo em que tu nem sabes
se existe. Romeu, ela nunca te prometeu os céus, pois Julieta sabe
que a vida contigo é o paraíso. Ela nunca brandiu falsas palavras a ti,
Romeu. Dela só sai o amor, e o amor é verdadeiro, Romeu.
Mesmo que queiras fechar os olhos e descansar, não vá sem tua
amada. Porque de tua amada tudo que tens é amor e compreensão.
Se um dia fores, não deixe tua amada. Se um dia fores, busca-a
e festeje onde quer que almas sombrias se encontrem. Mas se acaso
ficares, que fiques com tua amada. Não a renegue o beijo de vida que ela
sempre esperou. Não renegues os bons sonhos que ela nunca sonhou.
Romeu, não vais agora. Espere Julieta, ela talvez tenha o que precisa.
Ela tem o amor, Romeu. E tu a tens. Que isso seja suficiente, Romeu.
Que isso seja suficiente.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Nua

Adoro a sensação de estar nua em sua cama. Adoro estar nua, despida de roupas por alguns momentos meu corpo não encontra atrito algum e o vento que entra pela sua janela parece brincar com minha pele. Adoro a sensação de ter a alma nua em sua cama. Adoro a sensação de que não há grilhões que lastimam meus desejos, minhas imperfeições, minhas histerias e tristezas. Minh'alma nua em sua cama se sente leve. Adoro a sensação de minha mente nua em sua cama. Meus pensamentos caminham torto e a direito por toda ela, por todo você, por toda mim. Meus pensamentos são o que são, meus pensamentos parecem sentir o vento tanto quanto minha pele o sente. Adoro a sensação de estar nua em sua cama. Pois nua como me deixas fico despida dos meus medos. Nua como me deixas, fico sedenta por toda a tua nudeza de alma e corpo. Nua como me deixas, o som do gozo dá liberdade para meus demônios e os sossegam. Nua como me deixas, o silêncio me compreende. Em sua cama adoro a sensação de estar nua. Fico nua do mundo sem que me vejam, fico nua pra você para que me vejas por inteiro: corpo, alma, mente. Fico nua por você, prefiro que me vistas com teus toques, quais seda alguma nesse mundo terão tamanha delicadeza; lã alguma me darão tanto calor, couro algum me darão tanta firmeza. Adoro a sensação de estar nua em sua cama.

domingo, 17 de abril de 2016

Acompanhado de si mesmo

Lidar com uma ideia de solidão parece me que com o tempo é como lidar diariamente com algum vício. Mas parece ter estágios. Como em um vício em algo "leve", em algo que seu organismo sustente, mas com o tempo isso se torna pesado e mais pesado. Em alguns casos e em alguns vícios, você refreia isso. Veja bem, isso é uma atividade -esse vício e esse modo de lidar com a solidão- mas que não exclui a ideia de uma atividade passiva. Essa atividade pressupõe movimento para, um impulso ou parece mesmo ser agente. Então entra a passividade, o que não aniquila a atividade mas só a refreia, a deixa mais lenta, a desacelera assim dizendo. Associo aqui então a leveza com a atividade e o peso com a passividade.
Relendo isso agora me parece abobrinhas, mas enfim. Solidão. Uma palavra pequena, aparentemente que carrega um espectro sombrio sempre que pronunciada, mas por curiosidade busquei sua definição no dicionário: "estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só". Por bastante tempo me pareceu ser a coisa mais aterradora para um ser - animal, que possa ser ou não humano, e que por sua vez esse seja social, político, histórico, cultural - encontrar se nesse "estado". Essa definição, estado, me chama a atenção quando nos parece que quando nos sentimos solitários, talvez em um primeiro momento percebemos que realmente seja um estado, mas com um atrevimento e solicitando uma licença poética, por que não dizer que depois de um tempo, deixa de ser um estado e passa a ser algo intrinsecamente ligado ao conceito de existência, de ser, e talvez passe a ser ato? E esse ato não parece nos poder guiar para qualquer subsequente ação, ou ato pensado ou até mesmo a uma estaticidade? Não vou me arriscar falando mais abobrinhas, tentando definir algo.
Solidão e vício se parecem enquanto ação, me parece que nos dois você sempre se voltará para algo e somente algo, seja na vontade de satisfazer sua ânsia de alguma coisa, seja para voltar para si mesmo enquanto desacompanhado. O engraçado é que parece termos sempre a companhia de nós mesmos, um eu que admite seu próprio eu. Então me pergunto, não parece um pouco contraditório definir solidão como estado de alguém desacompanhado ou só? Talvez somente enquanto consideramos essa companhia como externa e material. De outro modo, concebo a solidão assim, estar acompanhado de si mesmo.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Leveza

Há um brilho no seu olhar. Um brilho diferente de todos os outros que vi. O seu é um perfeito sistema de contemplação. Ele brilha a cada gesto pequeno, a cada passo, a cada movimento da dança em que estamos jogados. Você acompanha meus olhos, você acompanha meus lábios, você acompanha minha respiração. E eu contemplo sua percepção. Eu acompanho teus movimentos. Há algo neles que me diz sobre a leveza. A leveza de um coração pesado, de um coração cheio mas que sempre carregou um vazio. Toco-lhe e sinto teu vazio. Tu escorregas teus dedos sobre meu corpo e parece também poder sentir meu vazio. Quando isso acontece, nos entre olhamos e conseguimos escutar um zumbido, seguido de um silêncio e um meio sorriso. Há algo em ti em que esvai toda minha ciência de temporalidade. Se passam dez, quinze minutos, um ano talvez e ainda estou ali contemplando teu olhar. Há algo na tua presença em que desperta uma propria trilha sonora em minha mente. Os acordes são doces, depois pesados e ritimados, me tiram o ar e depois voltam a sossegar. Você traz dentro de si sonoridade, leveza, incertezas e lembranças armaguradas, mas incrivelmente tudo que ofereces é um sorriso assustadoramente doce, desestabilizador. A tua leveza é diferente de todas as outras que já vi. A tua me carrega pelos braços, me tapam os ouvidos no meio de uma parafernália de barulhos caóticos, e me sossega os ânimos e por um momento penso em poder escuta lá. Ela parece cantar para mim, como uma cantiga antiga sobre grandes heróis que um dia lutaram com o pior de si, sobre como foram diversas vezes derrotados e abatidos, mas que um dia isso se tornou tudo que tinham mas que não os fizeram deles vilões. Eu sigo com essa cantiga na cabeça, cantarolando-a. E se um dia me perguntarem como essa cantiga se parece, como ela é e se posso canta-la, tudo que poderei fazer será sorrir, da melhor maneira que puder, tentando lembrar e imitar teu sorriso; na verdade, dela não poderei dizer nada, dela não poderei mostrar seus sons, mas dela em mim emanará toda a levaza que um dia pensei nunca poder contemplar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Elasticidade

Um dia pensei em escrever para o velho Buk. Mesmo sabendo que há tempos ele já não habitava esse mundo; pois o mundo em que podemos encontra lo agora será somente onde suas linhas têm início e fim, onde um dia ele se deixou impresso em várias páginas de livros. Os quais, por muitas vezes, nos trazem a realidade crua e nua da vida em si, da vida de quem frequentemente morreria mais vezes por amor ou coisa parecida do que tomaria seus whiskys baratos; minto, talvez teriam sido na mesma frequência. Convenhamos, sofrer de amor ou coisa parecida sempre requer uma dose de álcool qualquer que nos faça esquecer que já havíamos perdido o juízo há tempos. Bem, acabei não escrevendo pra ele. Entretanto, velho Buk... Eu talvez gostaria de fazer lhe perguntas frívolas. Como pode um coração afogado em bebidas baratas, sufocado por incontáveis cigarros e suas trágicas tragadas pesadas, um coração puído por falsas palavras ainda continuar a ser sem vergonha, tão besta e porque não dizer inocente, dar se o trabalho em acreditar? Sim. Acreditar no que quer que seja. Num olhar, numa lágrima, num beijo... Principalmente em um maldito beijo. Buk como explicar essa elasticidade e resiliência de um coração tão besta? Será que ele não entendeu do mundo o suficiente ou será que agora ele está mais calejado? Digo, talvez ele já tenha aprendido a apanhar mais do que bater nessa altura do campeonato. Velho Buk... Talvez seja só questão mesmo do quanto conseguimos apanhar com o coração na mão, exposto. E se sobrevivemos até agora, porque não deixar que ele acredite vez ou outra no que ele quiser? Só espero que agora ele esteja pronto pra qualquer que seja o resultado, e que ele possa saber continuar a bater mesmo tendo apanhado tanto.