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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Black widow

Ela agora as escolhe a dedo. Ela agora saboreia o odor que exala das feições de suas presas. Há tempos ela observara os modos de um predador. Ela absorve rápido. Muito rápido. E então ela veste está capa de aranha. De uma viúva negra. Que foi morta visceralmente. E então o seu exterior se torna sulcos pingantes de um veneno doloroso. As presas inadvertidas são atraídas até as teias perfumadas. As teias se movimentam com um balançar que parece causar às breves existentes presas que percebam algo que brilhe como ouro. Para só no fim descobrirem que era ouro de tolo. Ela se deleita com o processo. Ela não adverte mais. Ela raramente o faz, mas só para atrair novamente aquelas que se divertem com advertências. No fim, elas acabam se esquecendo disso de qualquer forma. E seu jogo continua. Ela absorve a dor e ela reproduz a dor. É lancinante. É viciante quase. Ela se passa por presa, ela sabe disso. Ninguém nota. E isso da um toque requintado ao seu paladar. No final da ceia ela se sacia sozinha com todas as premissas retiradas do forno precipitadamente. E que belo banquete ela banqueteia. Suas presas se derretem no paladar que se aguçou dolorosamente mas que agora é peremptoriamente sensível aos sabores seletos. Ela escolhe. Ela prende. Ela devora. E o que sobra são as vísceras de algo inocentemente devorado com um veneno misturado com luxúria e dor. Ela mastiga a dor, ela regojiza com a maldade de sua própria dor. Ela tem paciência. Pena. As presas não.

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