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"Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava o coração de alegria. Tudo o que amei, amei sozinho." - Poe

domingo, 21 de julho de 2024

Reality

Eu odeio como você me faz voltar pra mim mesma, todas as vezes! Meu deus, eu odeio muito. Todas as vezes que eu quero apenas te idealizar e viver uma ilusão só minha, você me traz de volta pra realidade. A sua versão que criei na minha cabeça me faz encarar a realidade, e encarar a mim mesma. Todas as vezes que eu procuro em você algo que possa me preencher, você me manda de volta a mim mesma e  eu retorno apenas para as expectativas que criei. Eu odeio tanto o quanto você me bagunça e desarranja toda a estrutura de mentiras e ilusões que criei sobre o mundo e sobre mim mesma. E sabe o que me sobra? Estar presente, de corpo e alma contigo. A ansiedade de prever um futuro, some. A agonia de repreender um passado, não existe. Eu te olho e consigo sentir os minutos, os segundos tal qual o compasso do meu coração. Não, não é uma paixão desenfreada, estúpida, ridícula e sem sentido. Todas as malditas vezes, você me faz voltar a mim mesma no minuto presente. E você evoca o que eu tenho medo: ser melhor. Me aperfeiçoar, ser boa e ser maior pra mim mesma. Você está fazendo tudo errado! Não vê? Eu aprendi a vida toda ser alguém e ser melhor para o outro. Mas para mim mesma? Isso é ridículo, insano. Tudo isso só foi possível porque todas as vezes que procuro as respostas da vida em você, eu enxergo limites. A porra dos malditos limites que demorei tempo demais para aprender a impor. Você é real até quando quer sonhar, você é sensato... E gentil. Quem caralhos faz tudo isso e ainda é gentil? O que você fez com sua dor que nunca a coloca na briga? Você a transformou em algo só seu, em seu aprendizado e traduz isso com carinho. Você afeta os outros com o que aprendeu, nunca usa sua dor para machucar alguém. Eu te odeio tanto por isso, porque me reconheço em você. 
Você nunca abre espaço para que seja a resposta de alguém, você é dúvida, movimento e desejo. E eu não posso te ter preso no tempo. Tudo que posso fazer é apreciar o que vejo e aprender contigo. Aprender e aplicar isso pra mim mesma. Obrigada. Agradeço ter me dado espaço para entender um pouquinho sobre você, sobre como se move, como deseja e como é ser alguém real.
Quando eu quero voltar a padrões que me machucam, você está no fundo da minha mente me lembrando que viver a realidade de forma lúcida é um prazer, e um privilégio.
Eu te odeio... Mas só porque você traz o melhor de mim. E isso me faz reconhecer o meu esforço e minha força. Eu te odeio, mas porque gostar de você, não dói. Então eu te gosto profundamente, e de forma real.

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